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Isto NÃO É uma crítica de arte, por Gil Vieira

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Como já era de se esperar, meu personagem sessentista, embebedado do vinho daqueles anos tão ganja-paz-amor-liberdade, ou melhor, alergicamente contaminado por aqueles ideais tão empoeirados, bixo, meu personagem sessentista foi desmascarado. Impuseram-me os pastiches, as desconstruções, os hibridismos, o esperma pegajoso de construtos sociais descendo goela abaixo, atravessado por relações de poder que minha versão sessentista desconhecia por completo.

Isto não é uma crítica de arte. Magritte estava completamente certo.

Tal qual o tiranossauro que compartilha o título de realeza, o Grupo Rex está totalmente extinto e exposto nas bienais e museus. “O que está dentro fica, o que está fora se expande”. Não existe frase mais incoerente para a arte contemporânea do que esta. Poderíamos substituí-la, nos livros de história, por “O que está dentro se expande, o que está fora também está dentro”. Site versus Non-site. Dispositivos de registro atuando como mediadores deste processo. Que não é meramente técnico ou jornalístico, mas é um processo cultural, social, artístico. Desdobramentos estéticos.

A arte, é claro, se alimenta das aparências.

(Isto não é um político, disse Magritte, ao que o povo brasileiro respondeu ISTO É MAIS QUE UM POLÍTICO. É UM HERÓI NACIONAL!, e Tiririca viveu feliz para sempre. A arte se alimenta de tiriricas, digo, de aparências.)

Antes de ver, reveja: aquilo é, sim, um cachimbo. Magritte estava completamente equivocado.

Nailana Thiely trouxe à Casa das Onze Janelas uma série de registros de intervenções que praticou nas ruas de Belém, utilizando principalmente a técnica do lambe-lambe. Antes de ver, reveja: não são propagandas, não é marketing, são ideias coladas no ponto de ônibus. Ideias materializadas em objetos. Aliás, nosso campo de visão é completamente saqueado pela quantidade de informação visual que pulula nas ruas, especialmente em épocas eleitorais. Pixos, grafites, tags e sticks são só mais uma imagem no campo de batalha da retina contemporânea.

Imagens de Antes de Ver, Reveja, de Nailana Thiely
Fonte: Jornal Diário do Pará, 23 de setembro de 2010

Antes de ver, reveja: seus pés não repousam sobre uma calçada, não há sol e nem a espera paciente de um ônibus que nunca chega. Você está na Casa das Onze Janelas, em uma de suas salas, olhando para fotografias e vídeos que apontam para um lugar lá fora, um espaço que você vivencia de outra forma, uma aparência, uma ilusão, um cachimbo. Desdobramentos artístico-estéticos regulamentados por plataformas de trabalho que facilitam minha vida de sessentista desmascarado: visitar o museu e seus registros me isenta de caçar a esmo estas práticas artísticas camufladas no seio do tecido urbano. Minha mente, claro, aprecia ordenamentos e gavetas. Meu corpo, óbvio, não aprecia pontos de ônibus e muito menos os próprios ônibus.

Mas isto não é uma crítica de arte.

Antes de ver, reveja: a potência do trabalho de Nailana Thiely enquanto arte NÃO É o estar imerso, imiscuído, na urbe. A potência enquanto arte é justamente fazer com que o trabalho emerja dentro de um espaço socialmente construído para a arte. Então olhamos diretamente dentro daqueles registros dos lambe-lambes, e escutamos os ecos falsos de nossa própria mente acusando: É ARTE, ao que Magritte responde ISTO NÃO É ARTE, é a aparência que construímos daquilo que imaginamos ser arte, o que vem a dar no mesmo, já que a arte é justamente aquilo que imaginamos ser arte. Há, aparentemente, falta de lógica, disso estou seguro. E a culpa é toda de Magritte.

Antes de pensar, repense: a arte, na produção de Nailana Thiely, não é construída no espaço urbano, e nem no espaço formal da galeria, mas é construída no espaço mental dentro das nossas caixas cranianas. Se nossa mente não der o salto qualitativo, então os cartazes não se transformam em ato artístico. A arte é conceitual. Coisa mental. É por isso que, desconfio, os espaços tradicionais sobrevivem mais fortes que nunca: eles auxiliam o processo mental em que transformamos coisas em arte. Resta saber se fazemos destes espaços territórios frios, mecânicos, ou territórios quentes e orgânicos, próprios à fluidez do pensamento. Fluidez do pensamento, claro, é só uma aparência, uma imagem mental construída blá blá blá…

O mesmo processo, aliás, é o que confere forças ao trabalho Mais um dia em Belém, de Igor Vidor, no Arte Pará 2010. A obra não atua dentro de uma concepção ontológica – como uma pintura, por exemplo – mas somente dentro de uma concepção sociológica e histórica, na qual a obra tem valor artístico pelas referências e pensamentos que tece, e não propriamente por seus aspectos estéticos ou formais. O que Igor Vidor propõe como obra é a sua permanência nesta província, quando vem de São Paulo para o Pará “somente” com o dinheiro para uma passagem de volta (sim, nós acreditamos nele), deixando sua estadia neste local ser proporcional à hospitalidade que lhe for oferecida por nossos nobres cidadãos paraenses. (E me parece que ele ainda habita entre nós, pois realizou o PROJ.OCUPAÇÃO: ATELIÊ, com a paraense Lu Magno, na segunda semana de novembro). Mais um dia em Belém é, portanto, o apelo que ele faz aos moradores dessa terra de ricas florestas fecundadas ao sol do equador, transformando em obra a permanência dele mesmo por aqui.

Ou melhor: transformando em obra a proposição de sua permanência em Belém, quando leva para uma parede do MHEP a camisa que estaria usando para ser reconhecido por pretendentes a hóspede, e um texto informativo sobre o projeto. Eu disse que arte é coisa mental? Não, na verdade quem disse foi Leonardo da Vinci. Eu disse que isto NÃO É uma crítica de arte?

É, portanto, outra noção de arte, outro paradigma que é construído por obras da contemporaneidade como Mais um dia em Belém. O grande PORÉM é que tratamos tudo como se fosse a mesma coisa – pinturas, esculturas, fotografias, vídeos, performances, instalações, ciberarte, intervenções, proposições e cachimbos. E o cachimbo da paz está definitivamente proibido. Não compre, plante. É claro que em 1960 eu era um cidadão utópico, mas em 2010 sou um cara contemporâneo, desideologizado e cafetão.

Isto não é cafetinagem, é apenas um texto. Amaldiçoado sejas, Magritte.

Cafetinagem em frente ao MHEP (adorõn)
Fonte: http://brunocantuaria.blogspot.com

Cafetinagem é a obra de Bruno Cantuária, Luciana Magno e Ricarco Macêdo, também no Arte Pará 2010. Constitui-se de um vídeo/performance, no qual três performers simulam a profissão do sexo, usando máscaras monstruosas. O contraste popularmente conhecido como Raimunda: feia de cara, boa de bunda. Mas as máscaras, mais do que esconder, revelam. Os câmeras/voyeurs/cafetões registram todos os movimentos, todos os clientes postiços. E assim nos transformam também em voyeurs/cafetões, quando nos fazem olhar através do vídeo Cafetinagem.

Além de voyeur e cafetão, sou também high society. E sou puta. I’m a designer, canto com Queens of the stone age.

As prostitutas mascaradas de Cafetinagem nos fazem tecer um milhão de pensamentos sobre as relações de poder na nossa sociedade, não somente acerca de sexo e gênero, mas muito além. No entanto, quero observar somente analogias ao nosso querido sistema da arte que intercede por nós junto ao Pai. Cafetinagem é apropriar-se de tudo e de todos, cafetinagem é transformar corpos alheios em moeda, cafetinagem é criar um novo paradigma para comportar novas territorialidades.

Eu, obviamente, me arreganho para esse tipo de cafetinagem, que é interessantíssimo. Chega de anos sessenta. Isto É SIM cafetinagem, Magritte não sabe de nada.

Assim como as putas, a arte usa máscaras – tanto para parecer bela quanto para parecer feia, dependendo de nossas intenções e concepções artístico-estéticas. Nos alimentamos de aparências. Se a pintura de um cachimbo não for um cachimbo, bem, então vamos tomar a pílula vermelha e acordar em Matrix.

Por enquanto, basta que continuemos a ensaiar um choro de pássaro enjaulado, um canto de Black Bird, que alegoriza bem nosso estado de refém em um contexto artístico e político que não favorece a clareza das ideias, mas a mistura de tudo para que tudo se torne confuso e hermeticamente indecifrável. Está claro que existem diversos conceitos de arte operando dentro de espaços comuns, e o que é pior, como se fossem a mesma coisa. Não há grandes esforços por parte das instituições (e a Ação Educativa do Salão Arte Pará é uma importante exceção) para possibilitar que o público não especializado se situe dentro das concepções de arte tão distintas que lhe são apresentadas.

Uma escultura posta ao lado de uma instalação conceitual, como se ambas estivessem operando com a mesma pressuposição de arte, é no mínimo um engodo.

Os museus e galerias, ao deixarem de salientar a devida importância dos processos históricos da arte no último século simplesmente contribuem para a desinformação e incapacidade do público não especializado na fruição devida das obras expostas. Assim, sem uma decodificação e apreensão eficaz, a arte contemporânea torna-se coisa desinteressante e elitizada. Uma prostituta high class.

Black Bird II, de Murilo Rodrigues, também no Arte Pará 2010, apresenta o vídeo de um músico e seu instrumento projetados em uma pequena sala dentro do MHEP, com as grades fechadas tal qual uma gaiola, na qual somente observamos pelo lado de fora da grade e ouvimos a música-lamento que emana no local. E mais uma vez nos transformamos em voyeurs/cafetões de uma arte que canta encarcerada, ao invés de voar pelo formoso céu risonho e límpido desta pátria amada que nos pariu.

Fui desmascarado. Já não me cabe a máscara de sessentista. Eu não sou um cachimbo.

Isto NÃO É uma crítica de arte. Antes de ler, releia.

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Gil Vieira Costa é uma pessoa desprovida de personalidade, além de Técnico em Design, puta da high society nas horas vagas e Mestrando em Artes (UFPA).

 

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Written by artecriticapara

novembro 14, 2010 às 4:38 pm

Publicado em Críticas

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