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Chagas de uma cidade labiríntica, por Gil Vieira Costa

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Foi-se o tempo em que o grafite era considerado vandalismo ou poluição visual. Elevado ao título de manifestação artística, o grafite vem consolidando seu espaço nas galerias de arte pelo mundo afora. E em Belém não podia ser diferente. A artista plástica Drika Chagas inaugura hoje (4), no Centro Cultural Sesc Boulevard, a instalação “Cidade Labirinto”.

Larguei o jornal, bebi mais um gole de café com leite, levantei da mesa e fui em direção à rua. Meu id bebeu café puro e acendeu um cigarro. Meu superego agradeceu mentalmente a deus enquanto caminhávamos lado a lado sob o sol ácido equatorial. Do concreto e do asfalto emanava o bafo infernal da metropolis da amazônia. Subimos no ônibus – superego, id e eu – e esperamos que o coletivo nos redimisse.

Para compreender a exposição-obra Cidade Labirinto, que esteve no Centro Cultural Sesc Boulevard entre 04 de agosto e 25 de setembro de 2011, é necessário tê-la visto. E não somente visto, mas nela ter se posto. Exposição-obra habitável: nela qualquer postura contemplativa nada revela, se não estiver sobreposta a uma qualquer postura exploradora. Tanto a cidade quanto o labirinto são para o percurso e para a perdição. Todos os caminhos levam a algum caminho. As portas todas são de entrada. Inconformado, id procura com voracidade por uma saída.

Pois nós entramos, é claro. Na cidade-exposição, que prontamente nos recebeu de dentes arreganhados. Porque a cidade é feita de tensões, disso o id tinha quase certeza, se é que se pode possuir certezas. O obstáculo é que, em geral, nos fortalece. Ou, em outras palavras, “da adversidade vivemos”. Antes eu me perguntaria “que é grafite?” ou “que pode ser?”, mas hoje tenho a impressão de que certas perguntas são ineficazes, justamente porque são as questões erradas. Primeiro seria necessário perguntar “por que grafite?”, “por que cidade?”, “por que labirinto?”. Assim, “o ponto in[d]icial”, vociferou o id ao meu lado, “não é a tensão entre grafite-urbe e grafite-cubo”, e o superego resmungou mas calou-se. Eu, por outro lado, apenas maravilhava-me, afinal, a tensão que realmente importa é entre obra-público, e esta relação estava definitivamente tensa e tesa, quase a estourar-me as braguilhas mentais.

A cidade-labirinto constituiu-se de uma montagem cenográfica no espaço expositivo do Sesc Boulevard, em Belém, que erigiu um espaço imersivo trazendo barracos, quartos, corredores, pontes, feiras, palafitas, edifícios, trânsito, gambiarra, vida e morte, além de spray por todos os lados. Como na dadaísta Merzbau de Kurt Schwitters, os diversos elementos ali agregados de forma não convencional compunham um todo significativo. A cidade estava contida na cidade. Meu superego sussurrou: a cidade-labirinto é falsa, é claro. Não um simulacro da cidade real, mas a hiper-realização de algo. Talvez da arte, ela própria atualmente um simulacro da vida. Falsa pode ser uma palavra demasiadamente ferina, por isso o superego logo se corrigiu: é uma cidade-labirinto ficcional. Ah, ficção, há tantos séculos que nos seduzes com o prazer das realidades imaginárias… Aliás, enquanto escrevo crio já outra cidade-labirinto, que é a das minhas memórias, pelas quais percorro como pela primeira vez a exposição.

Exposição Cidade Labirinto, de Drika Chagas
Fonte: foto da artista, disponível em http://drikachagas.com.br/atelie/?page_id=33

A cena inicial que descreverei, entretanto, não diz respeito propriamente às marcas deixadas pela artista no seio de seu labirinto, mas fala sobre outro tipo de inscrições que se agregam à cidade-expositiva, como num simulacro das marcas inscritas na cidade-das-mangueiras. Drika Chagas dispôs ao público, num corredor periférico à cidade-labirinto, um grande paredão branco e canetas-marcadores, para que o mesmo produzisse suas próprias chagas naquele ambiente. Uma das intervenções atestava a seguinte frase:

100% VANDALISMO

Porém, uma intervenção, aparentemente posterior e de outra pessoa, alterava aquela frase, perdida no meio de tantas outras frases e imagens:

DIGA NÃO

AO

100% VANDALISMO

Tal tensão entre conceitos é emblemática das relações que se estabelecem na cidade. O jogo de interesses, o jogo de contrariedades, o jogo das afinidades, exclusões, justaposições. Diferentes cosmovisões coabitando em um espaço comum. Modos de encarar o grafite, a pichação, a intervenção, a periferia, a arte, o muro, a rua, a cidade. Mas tal tensão também é emblemática das relações que se estabelecem na arte contemporânea: diferentes conceitos e modos de produção dos objetos e processos artísticos, coabitando, para o bem e para o mal, sob um mesmo céu. Ou, antes, sob um mesmo teto de vidro – complementou-me o superego.

Semelhante à pesquisa plástica neoconcretista, especialmente de Lygia Clark e Hélio Oiticica, a cidade-labirinto propôs o grafite, a pintura, a instalação, a obra como algo a ser vivenciado integralmente dentro de um tempo-espaço – mas sem vinculação à verve abstrata. A figuração apareceu como percurso no próprio labirinto: construiu personagens e caminhos, similaridades e analogias. Alinhando-se a um pensamento de arte participativa, Drika Chagas sugeriu ao público um percurso labiríntico, desbravador, lúdico e lúcido. A exposição não se construiu como simulacro da cidade real, mas se predispôs como outra cidade, como texto, trilha sígnica, legible city a ser percorrida, decifrada, ingerida e regurgitada. Cada capítulo desse texto não impõe uma linearidade narrativa, mas propõe saltos e construção fragmentada de conceitos e interpretações. E mais: me pôs na condição de personagem do ato criativo. Me pôs como uma das figuras longilíneas que bruxuleiam pelas paredes do labirinto. Como um dos personagens dessa cidade: o homem que tem em seu olho o epicentro da máquina, o eixo do pneu, da roda. O olho-máquina de visão, que tão constantemente temos negligenciado no consumo irrefletido das imagens postas na mesa.

Fonte: fotografia da artista, disponível em http://drikachagas.com.br/atelie/?page_id=33

Não existe signo vazio na cidade-labirinto. Não há espetáculo, a não ser as molduras mentais e físicas da própria arte. A figuração da cidade-labirinto é plurissignificativa. Se por um lado torna palatável ao circuito artístico a marginalidade da cultura das periferias, por outro lado instaura no próprio espaço expositivo uma outra rua, outros muros, sob outra contextualização social e política diferente. A validade não está na proposição do grafite enquanto arte (proposta tantas vezes internacionalmente afirmada e também refutada), mas na proposição da cidade enquanto ficção.

Eis que, relembro, diante de mim surge uma parede transparente, na qual um manto sacrossanto está representado. Por trás da transparência dessa parede há outra personagem: uma mulher, senhora, de rosto curvado e semblante entristecido. Percebo na hora o convite: o labirinto me força ao reposicionamento, ao enquadramento, o labirinto me faz deslocar em busca da sobreposição de imagens, como um gozo, um jogo, uma espécie de tarefa que a artista deixa ao público, e que prontamente correspondo. Id acena com a cabeça um gesto de aprovação, ao mesmo tempo em que me empurra ao ato. Nada fora do óbvio: a mulher, o manto, a possibilidade da santa, tão humana quanto qualquer personagem mamando no seio da cidade. Mas a proposição é como um gatilho, que só se aciona com a aceitação do jogo pelo público, com a busca da sobreposição das imagens complementares. Como outrora afirmou a obra de Lygia Clark, o outro (o público) é que passa a ser o suporte da arte, em sua relação sujeito-objeto.

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Fonte: fotografia de John Fletcher, disponível em http://drikachagas.com.br/atelie/?page_id=33

Outro gatilho a ser disparado está na face do Belo Monstro grafitado em uma parede da cidade labiríntica. Os olhos da máscara monstruosa estão perfurados e nos convidam ao voyeurismo. Meus dedos sentem o gatilho pulsante dessa cidade sexual. Sim, happiness is a warm gun, e não resisto a uma espiada através dos olhos do Belo Monstro, mesmo com o olhar restritivo de meu superego encostado num barraco lateral. A grande surpresa é que não espiei como um olho qui[cam]mérico do Grande Irmão, mas como um olho heterotópico autoavaliativo: pela brecha avistei um espelho, e nesse espelho estavam refletidos dois personagens (a mulher, o homem), cujo olho era o meu próprio. Encarei-me como o voyeur acomodado que observa indiferente a construção da UHE Belo Monte. E, tragicamente, consenti. A cidade, por mais fictícia que seja, sempre possui algo a nos ensinar.

Fonte: fotografia da artista, disponível em http://drikachagas.com.br/atelie/?page_id=33

A cidade se encontra prostituída por aqueles que a usaram em busca de saída

Ilusora de pessoas de outros lugares, a cidade e sua fama vai além dos mares

No meio da esperteza internacional a cidade até que não está tão mal

E a situação sempre mais ou menos, sempre uns com mais e outros com menos… ♫♪

Os caranguejos e seus cérebros saem da lama e invadem o solo da cidade, esse campo de batalha. Eu me mantenho indiferente, não tomo partido, por mais que id e superego me ponham a bandeira negra nas mãos. Por mais caranguejos cerebrais que dos mangues saiam, a cidade ainda permanece sob o domínio dos urubus, que do alto miram tiros certeiros. Eu me esquivo. Mas a cidade-labirinto assume sua posição nessa guerra.

Mas o id adentra um barraco.

Negrume.

De repente, fiat lux. A intimidade está posta, inteiramente penetrada.

Uma poltrona nos convida ao repouso. De lá, acomodado, observo o compartimento em que adentramos. Uma ampulheta atesta que as areias do tempo escorrem pelo ralo indefinidamente. Pendurada na parede, uma máscara. De pé, uma menina, uma boneca. Na parede oposta o espelho, pelo qual adentro com meu olhar no recinto, serve de heterotopia para que nunca nos esqueçamos de que tempo e espaço são apenas categorias mentais que não são indispensáveis. A cidade, assim como o labirinto, possui tantos tempos e espaços quantos forem possíveis inventar ou experimentar. Atravesso uma espécie de ponte de madeira, palafítica, e adentro outro quarto, no qual repousa uma mulher seminua em sua cama. O superego, é claro, tapa os olhos, enquanto que o id passa a maquinar perversões sexuais. Um abajur derrama uma luz pastosa no compartimento. A parede, onde a mulher enclausurada dorme, cospe um lençol sobre a cama. Drika Chagas trabalha muito bem com a possibilidade de relações entre pintura e objeto. Como uma gravura de Escher, o grafite da artista, por diversas vezes, ganha corpo e tridimensionalidade. Como uma obra de Rauschenberg, tal pintura combina objetos.

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Fonte: fotografia de John Fletcher, disponível em http://drikachagas.com.br/atelie/?page_id=33

Uma das figuras longilíneas mais intrigantes, personagens de uma fantasmática cidade estranhamente familiar, é o garoto-homem sentado com sua baladeira-estetoscópio. Uma grade nos separava dele, como se fosse um louco privado do convívio comum, com o qual o id de certa forma identificou-se. Tal garoto insano aponta sua baladeira de um modo nada costumeiro, num autoflagelo que o superego não suporta, a ponto de quase gritar “o tiro sairá pela culatra, moleque!”.

Fonte: fotografia da artista, disponível em http://drikachagas.com.br/atelie/?page_id=33

A cidade-labirinto carrega em si as Chagas de um povo esquizo. Viver em [so]ci[e]dade é lidar com a beira do abismo, com a corda bamba que separa (ou antes integra) loucura e sensatez. Cidade-labirinto, por outros meios e características, também expressa a esquizofrenia de uma arte que se situa na corda bamba, nas margens incômodas das categorizações. Apenas um dos seus grandes méritos.

Por Gil Vieira Costa, mestre em plágios literários e conceituais, além de incoerente, pedante e dissimulado.

GOOGLIOGRAFIA

CHAGAS, Drika. In: <http://drikachagas.com.br/atelie/&gt; Belém, Pará.

CLARK, Lygia. Bichos. Neoconcretismo: Rio de Janeiro, a partir de 1959.

ESCHER, Maurits C. Gravuras. Holanda/Itália, a partir da década de 1930.

INTERNACIONAL, Grande Capital. Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Brasil: Amazônia, [sem data].

OITICICA, Hélio. Núcleos e Penetráveis. Neoconcretismo: Rio de Janeiro, a partir de 1960.

RAUSCHENBERG, Robert. Combine painting. Pop art: Estados Unidos, meados da década de 1950.

SCIENCE, Francisco; ZUMBI, Nação. A cidade. In: Da lama ao caos, 1994.

SCHWITTERS, Kurt. Merzbau. Dadaísmo: Alemanha, início da década de 1920.

SHAW, Jeffrey. The legible city. Nova York: 1989.

Written by artecriticapara

novembro 8, 2011 at 12:29 pm

Publicado em Críticas