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Tropicapitalismo ou “Hélio Oiticica – Museu é o Mundo” (Parte II), por Gil Vieira Costa

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A difícil arte da comunicação fácil

Para uma compreensão mais apurada dos fatos recentes, é necessário que eu me reporte ao passado, mais precisamente ao mês de agosto de 1968 – ano tão turbulento e fecundo. No dia 11 de agosto do referido ano iniciava em Belém um portentoso evento voltado para as diversas áreas artísticas: a I Cultural de Belém, que trouxe exposição de obras dos artistas que estiveram na IX Bienal Internacional de São Paulo (1967), conferências, cursos e exposição de obras de artistas paraenses, contando com premiações. As exposições, que se encerraram no dia 30 daquele mês, foram realizadas em stands montados na Praça da República, no centro da cidade. Segundo o jornal A Província do Pará (11 e 12 de agosto de 1968), a I Cultural de Belém foi realizada com patrocínio do Governo do Estado do Pará, Prefeitura Municipal de Belém e Universidade Federal do Pará. Na programação deste evento ocorreu uma conferência proferida por Hélio Oiticica, no dia 14 de agosto, conforme salienta a matéria no jornal A Província do Pará (15 de agosto de 1968):

“Em prosseguimento ao programa da I Cultural do Pará, ontem à noite o artista plástico Hélio Oiticica proferiu uma palestra intitulada ‘O Depoimento de um artista’, que foi prestigiada com a presença de todos os artistas que participarão da I Cultural do Pará e um número expressivo de assistentes acomodados na buate da Assembléia Paraense. Várias personalidades das artes paraenses assistiram à palestra, que teve também a projeção de slides sobre as obras de Hélio Oiticica e de outros artistas, seguida de um debate.”

Hélio Oiticica (centro) e Haroldo de Campos (direita), durante entrevista em Belém, 1968. Fonte: Jornal A Província do Pará, 16 de agosto de 1968.

É importante percebermos que a I Cultural de Belém foi um dos eventos, no campo das artes, que possibilitou a discussão e o contato com o que se produzia no sul e sudeste do país – o evento pode ser situado dentro do rol de realizações da Universidade Federal do Pará com o intuito de fomentar as artes na região. Muito do que se discutiu em 1968 ainda constitui questionamentos abertos, mesmo na atualidade. Vejamos o que diz a reportagem de 16 de agosto de 1968, no jornal A Província do Pará, em que foram entrevistados os conferencistas Haroldo de Campos e Hélio Oiticica:

[ABRE ASPAS] Haroldo de Campos diz – e Oiticica concorda – que “o Brasil está dividido em ilhas praticamente incomunicáveis e só através de eventos como a I Cultural de Belém poderemos superar essas distâncias geográficas. É louvável o lançamento de uma idéia de contacto entre Norte e Sul em têrmos de uma experiência cultural viva”.

Segundo Oiticica, “foram trazidos artistas jovens de vanguarda, que estão procurando caminhos novos em sua arte, e foi feito um pequeno conjunto de conferências abordando problemas da maior atualidade: a questão da obra aberta, do caráter efêmero da obra de arte, o problema da relação entre vanguarda e contexto social, relações entre música popular, artes plásticas e literatura que se está fazendo hoje etc. Que a I Cultural seja o início de um contato mais duradouro, inclusive com a participação dos intelectuais do Pará” [FECHA ASPAS].

Pode-se salientar que só há pouco tempo que a incomunicabilidade entre o norte e o sul do país tem deixado de ser relevante, no campo artístico. As distâncias geográficas e econômicas têm sido suavizadas pelas possibilidades comunicacionais e de meios de transporte. A vinda da exposição “Hélio Oiticica – Museu é o Mundo” a Belém, no ano corrente, é um dado que confirma um contato mais consolidado (recente, talvez) do norte com o restante do país.

Se, em 1968, Hélio Oiticica, dentre outros, discutia questões ainda hoje relevantes para a arte, a exposição realizada na Praça da República na programação daquele mesmo evento não pareceu ter alcançado completamente seus objetivos. Carlos Jurandir, na matéria chamada A difícil arte da comunicação fácil, do jornal A Província do Pará (22 de agosto de 1968), descreve sua percepção daquela exposição:

[ABRE ASPAS DE NOVO] De microfône na mão, os próprios autores ou o crítico efetuam uma espécie de “complementação”: os trabalhos são explicados, é dado ensejo para as perguntas, que raramente vêm.

Qual o público que visita as barracas? A exposição está localizada no centro da cidade, numa praça com permanente movimento de pessoas. Quase tôdas interrompem o caminho para ver: ficam durante algum tempo diante dos quadros e esculturas, a maioria apenas se detém por alguns instantes, outra parte permanece em silêncio. Mas tôdas essas pessoas, ao responder a perguntas a respeito do que viram, mostram-se reticentes e desconfiadas.

(…) Contudo, mesmo depois das explicações, fica o silêncio: falta alguma coisa. Até que ponto a comunicação será completa? [FECHA].

Vale lembrar que as obras expostas na I Cultural de Belém, que estiveram expostas também na Bienal de São Paulo de 1967, eram em sua maioria obras que flertavam com a pop art, utilizando elementos do cotidiano da indústria cultural que se consolidava. Tais pinturas, alega Carlos Jurandir partindo das reflexões de Mario Schemberg, pretendem uma aproximação com o público não especializado através de elementos que lhes são comuns (futebol, celebridades, personagens de quadrinhos etc.). Não estiveram expostas na I Cultural de Belém obras como os penetráveis ou parangolés de Hélio Oiticica, ou de artistas como Lygia Clark, Artur Barrio, dentre outros. Ainda assim, para Carlos Jurandir a comunicação não pareceu ter sido alcançada conforme o esperado.

Pintura da série “Bandido da Luz Vermelha”, de Cláudio Tozzi (1967), que foi exposta na I Cultural de Belém em 1968. Fonte: http://www.art-bonobo.com/claudiotozzi/ctozzi03.htm

Traça-se, assim, um paralelo com a exposição “Hélio Oiticica – Museu é o Mundo”, na qual a mediação cultural/educativa possui um papel fundamental, que não pode ser menosprezado pelas instituições promotoras. Mas chega-se também a outro ponto: a acessibilidade cultural ao patrimônio artístico não se dá somente em mediações nas próprias exposições, mas principalmente na educação adquirida no decorrer do amadurecimento – através do contato regular com a produção de arte e com os códigos necessários para apreendê-la. Para Néstor Canclini, no livro Culturas Híbridas:

“A comunicação massiva difunde extensamente a notícia, pode sugerir a importância de comparecer e conseguir que um certo número o faça uma vez, mas sua ação ocasional tem pouca capacidade de criar hábitos culturais duradouros. A alta proporção de público com formação universitária indica que o interesse pelos museus de arte moderna cresce à medida que aumenta o nível econômico, o educativo e a familiarização prolongada com a cultura de elite”.

A educação formal em arte, no decorrer do Ensino Fundamental e Médio, pode ser apontada como um dos fatores que, em longo prazo, possibilitaria a acessibilidade cultural ao patrimônio artístico, já que põe um grande público em formação em contato com os códigos necessários para a compreensão artística. No entanto, como já cantaram outros conterrâneos de Oiticica, da banda Picassos Falsos, “meu amor olhe pros lados, desde criança só lemos os quadrinhos nos jornais”…

De saída

Assim, do alto da minha insignificância, chego ao ponto em que é necessário amarrar todo o pensamento aqui exposto em uma suposta contribuição ao mundo da arte contemporânea. Por um lado, chego à conclusão de que as relações tropicapitalistas praticadas pelas instituições culturais são extremamente vitais e necessárias no contexto brasileiro, já que possibilitam a manutenção, a produção e a acessibilidade às produções artísticas, tanto recentes quanto as de reconhecido valor histórico (como no caso de Hélio Oiticica).

Por outro lado, para que estas relações se concretizem, é preciso em parte suprimir, ou antes apropriar, a produção artística que originalmente negava a sistematização da arte (como no caso de Oiticica e sua denominada antiarte). Ao realizar tal procedimento, as instituições criam tensões, inclusive na decodificação das próprias obras. Tais tensões podem ser atenuadas pela mediação cultural/educativa, que emerge como prática capaz de proporcionar (assumidas as devidas restrições) a tão aclamada acessibilidade cultural ao patrimônio artístico.

Ainda um outro lado da questão é não permitir que a mediação se torne uma intelectualização da produção de Oiticica, já que a mesma busca o oposto: o descondicionamento (supondo que o mesmo seja possível). A mediação, neste caso, deve estimular o público à participação, tomando-a como criação de sentido ou pensamento. Hélio Oiticica, filosofando cannabisticamente sobre sua produção, em Aspiro ao grande labirinto, diz:

“Não se trata mais de impor um acervo de idéias e estruturas acabadas ao espectador, mas de procurar pela descentralização da ‘arte’, pelo deslocamento do que se designa como arte, do campo intelectual racional para o da proposição criativa vivencial; dar ao homem, ao indivíduo de hoje, a possibilidade de ‘experimentar a criação’, de descobrir pela participação, esta de diversas ordens, algo que para ele possua significado”.

Com todos estes lados da questão, estaríamos encurralados, sem ter por onde escapar, em uma sinuca?

Aquilo que Oiticica chamou de crelazer – a participação criativa e prazerosa (lazer-prazer-fazer) – pode não se tornar uma possibilidade na experimentação de “Hélio Oiticica – Museu é o Mundo”. É necessário dizer que o descondicionamento é praticamente inviável, já que os próprios espaços museológicos conferem um a priori para as obras (o espaço é simbólico por si só). Há ainda a midiatização (necessária, para as instituições) da exposição, transformando-a, geralmente, em evento espetacularizado. O crelazer dá lugar ao lazer descompromissado e formatado pelos meios de comunicação. A mediação cultural/educativa é um dos fatores que pode minimizar as consequências da espetacularização atual da arte. No entanto, essa mediação nem sempre é eficaz, por ser uma prática educativa esporádica.

No caso da exposição “Hélio Oiticica – Museu é o Mundo” as atividades (em andamento) que proporcionam um desdobramento bastante interessante e pertinente são as intervenções no penetrável Rhodislândia, por artistas/pesquisadores convidados pela ação educativa. A princípio, quatro ações estavam previstas dentro da programação, que posteriormente foi ampliada, contando com intervenções performáticas, exibição de filmes seguida de debate, apresentações musicais, workshop etc. Tais ações proporcionam um espaço de contato, de crelazer, de vivência não somente da obra de Oiticica, mas também de novas possibilidades no contato de outros artistas e práticas com essa produção.

Convite para a ação do artista Pablo Mufarrej no penetrável Rhodislândia, dentro da programação da exposição “Hélio Oiticica – Museu é o Mundo”.

Voltemos ao fomento de um público capaz de usufruir do patrimônio cultural oferecido pelas instituições, principalmente através de verbas públicas. Canclini (prometo que esta é a última citação), diz que “Os estudos sobre públicos europeus e latino-americanos permitem concluir que a contextualização das obras artísticas aumenta sua legibilidade, mas consegue pouco no que toca à atração de mais espectadores e à incorporação de novos padrões perceptivos. (…) O mais freqüente é que o público desloque sua concentração da obra para a biografia do artista e substitua a luta com as formas pelos pequenos episódios históricos”.

Assim, as práticas culturais artísticas da contemporaneidade apresentam toda uma fragilidade, quando se observa as tensões estabelecidas nos diversos objetivos que se pretende alcançar através das mesmas. Vale, ainda, a frase de 1968: a difícil arte da comunicação fácil. A produção de Hélio Oiticica, longe de estar em uma sinuca, parece adquirir novos significados ao ser inserida nestas relações.

Mesa de Sinuca, na entrada do MHEP, dentro da exposição “Hélio Oiticica – Museu é o Mundo”.

 Por Gil Vieira Costa, Mestre em Artes pela UFPA, pequeno-burguês, ex-dependente de sarcasmo e, futuramente, talvez um respeitável pai de família.

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Written by artecriticapara

maio 22, 2011 às 3:36 pm

Publicado em Críticas, Resenhas

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