Arte Crítica Pará

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Diálogos: Intertextualidades Visuais em “Razões do Corpo”, de Elieni Tenório, “Antes de Ver, reVeja”, de Nailana Thiely, e “Entrecorpos”, de artistas paraenses

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Por John Fletcher[i]

Venho sendo tomado, cada vez mais, pelo entendimento profético de Mikhail Bakhtin (2003) em torno de seu chamado dialogismo: um termo reconfigurado por volta do início do século XX pelo lingüista russo em parceria com outros teóricos como Valentim N. Voloshinov e Pavel N. Medvedev (FARACO, 2009).

Tal atualidade é tamanha, vale considerar, não somente por observar as incursões teórico-filosóficas do Círculo Bakhtiniano a respeito deste entendimento, como também por ver desdobramentos conceituais contemporâneos sendo utilizados a partir dele: a intertextualidade, de Julia Kristeva (1998) e o rizoma, de Gilles Deleuze (2004) – extensões reflexivas as quais contêm o próprio DNA bakhtiniano como fonte de origem.

Para o Círculo, o dialogismo, sendo observado no universo da cultura (mas não somente nele), se desdobra num devir intrinsecamente responsivo, numa troca ininterrupta, ao passo que vozes sociais[ii] são as protagonistas neste fluxo, em conversas entrecruzadas. Tal combinação atualíssima forneceu e fornece uma arregimentação multiforme, contínua, com fronteiras em entrecruzamentos, interpelações, dissoluções; uma vazão de novas possibilidades de diálogos, dinâmicas, fugas, imagens e vozes sociais.

E como o caso em questão é refletir sobre determinadas obras e/ ou exposições no campo das artes em Belém, mais precisamente com Razões do Corpo, de Elieni Tenório, Antes de Ver, reVeja, de Nailana Thiely e Entrecorpos, de vários artistas do cenário paraense, Bakhtin se torna uma chave oportuna se levarmos em consideração que a arte forma indícios antropológicos de uma rede dialógica veloz e distante de nomenclaturas.

Elieni Tenório, primeiramente, com a exposição Razões do Corpo, uma das ganhadora do prêmio Secult de Artes Visuais 2010, exposta na Casa das 11 Janelas, em Belém, sob texto curatorial do poeta Ney Paiva, inicia nosso percurso de observações.

Como bem observou o ótimo texto de Paiva, Tenório prima por uma rede difusa de elementos ora contrários, ora intercambiantes, imprimindo uma sensualidade humana semi-sacra, semi-profana. Sua exposição trouxe gravuras, desenhos que remetem ao sentir estético desenvolvido pela artista nos últimos tempos, com corpos (e a imanência deles), moldes, diferenças, cacos, o caos, o abandono e a presença.

A delicadeza e a exuberância de suas obras trafegaram pelo sentir indicial de inúmeras vozes sociais, com suas respectivas vivências axiológicas trazidas para a galeria, não lhes negando seus traçados dialógicos, seus conflitos, nem suas diversas formas de se movimentar sem um padrão vigente.

Sentimentos distintos são atravessados, permeados por uma artezanalidade de Tenório em não efetuar um ponto de término, mas de fluxos crescentes. Há uma perceptível e tática monotonia da repetição – seja nas formas, no universo de detalhes que viram uma única cadeia visual, ou na sensação de detalhes furtivos que escapam frente à overdose imagética macro (e cujo cineasta italiano Michelangelo Antonioni transformou tão bem em protagonista-sublime nos seus filmes[i]).

A meu ver, esta “overdose” poderia ser só um pouquinho menor, a fim de tornar a exposição mais fluida com o fruidor (e não estanque como possibilidade). A técnica empregada e os suportes, da mesma forma, num fluxo constante e indiferenciado, poderiam trafegar e agregar distintas plataformas, com o intuito de tornar a investigação de Tenório numa excelência irretocável.

O segundo objeto de análise deste percurso reflexivo é a exposição Antes de Ver, reVeja, de Nailana Thiely, também ganhadora do prêmio Secult de Artes Visuais 2010 e exposta na Casa das 11 Janelas, em Belém.

Ao fazer uso até já comum de intervenção urbana com cartazes lambe-lambe, folhetos, adesivos (veículos de apelo publicitário cotidiano) modificados, a artista trouxe a resignificação destes para Belém, com mensagens outras, irônicas, críticas, bem humoradas. O repertório imaginário e conceitual conhecido e utilizado na exposição, em sua tensão mutante, exemplificou bem os apontamentos sobre a pós-modernidade de Hassan (1985), como possibilidade irônica, rizomática e bricolada.

Ademais, Antes de Ver, reVeja se situou no patamar de efemeridade das ruas, com seus eternos fluxos dialógicos onde a substituição/ renovação de informações é constante para abarcar a velocidade das redes sociais em troca de dados. Isto, inclusive, aproximou a exposição de Thiely dos apontamentos de Martín-Barbero (2003), os quais puderam identificar o papel que os meios de comunicação agem no desenvolvimento das culturalidades, bem como as indústrias culturais, capazes de gerar um novo foco atemporal e de espaço descontínuo.

A vivência aberta aos dialogismos empreendidos por estes meios, segundo Martín-Barbero, permite uma flexibilidade no arcabouço simbólico dos povos da América. E como a artista trouxe um bom humor da urbanidade paraense para a galeria e brincou com as superficialidades e a banalização das informações, é inevitável ver sua criação estética como um diálogo visual com a rede de apropriações da América Latina.

A idéia poderia ser mais densa e a poética bem humorada mais refinada (e isso não quer dizer mais complexa, necessariamente, pois no simples também habita a genialidade), entretanto, Antes de Ver, reVeja trouxe um caminho inicial para o fruidor com seu entendimento do entorno que o envolve.

Por fim, mas não definitivamente, o terceiro objeto de análise é a exposição coletiva Entrecorpos, a qual veio com texto curatorial de Luizan Pinheiro, exposta na Galeria Theodoro Braga. Os artistas, mais especificamente, que comporam a mostra foram: Paulo Wagner, João Cirilo, Eliane Moura, Dany Meireles, Joana Sena, Ilton Ribeiro, Luciana Magno, Pamela Massoud, Douglas Caleja, Luizan Pinheiro, entre outros.

Ao propor um trânsito pelo pornô-erótico do corpo, em seus rompantes de luxúria e imanência, de perversão e política trans-imagética, tudo parecia um excelente mote para o sentir estético, conforme delineado pelo excelente texto de Pinheiro (e que trazia uma característica de fluidez e descolamento, ao se apresentar circundando a exposição com sua disposição no rodapé da galeria), mas infelizmente, e digo com muito pesar, não foi o que ocorreu na prática.

Até agora não consegui digerir as obras expostas, pois, acima das tentativas, a meu ver (e muitos podem discordar, portanto comentem neste espaço), vislumbrei ingenuidade quanto à potência da idéia, aliada a uma execução técnica deficitária.

O que mais comprometeu a minha apreciação foi, sem dúvida, a quantidade de obras prensadas na Galeria Theodoro Braga e grudadas umas às outras, em virtude do pouco espaço para muita informação. Algumas, por sinal, sem uma área mais apropriada, como no caso do vídeo de Luciana Magno, foram seriamente comprometidas. E este caos, o qual pode até ser argumentado cientificamente com algum conceito pós-moderno de fugir aos padrões do cubo branco e de colocar em crise a área de exposição (pois existe conceito para tudo neste mundo), me pareceu inépcia mesmo. É aquela velha história: para desconstruir é necessário conhecer muito bem o construído, caso contrário, vemos a chamada imanência transformada em agir imaturo-estético.

A certa falta de criatividade nas obras me acertou em cheio, uma vez que me deparei com conceitos tão utilizados, clichês no sentido mais amplo. No caso da instalação de Dany Meireles, intitulada “Substantivo Feminino Espera”, não havia associação que não a de um pastiche menor com a exposição de Cláudia Leão “O Rosto e os Outros”. Cláudia, por sinal, não esgotou o tema nem o formato ao se utilizar de janelas e a poética da espera (e creio que a idéia dela nem era essa), mas o mínimo que se esperaria de uma obra “After Cláudia Leão” seria uma resignificação apontando novos rumos.

A tela “Nossa Senhora”, de Alexandre Dantas, ao parecer um exercício acadêmico, foi outro ponto baixo, baixíssimo. Não sei se havia interesse de criar uma polêmica com alguma referência religiosa numa exposição com tal tema, porém isto não ficou claro (e convenhamos, se fosse por polêmica, uma heresia na potência de “Piss Christ” (1987), do Andres Serrano seria mais interessante do que um fac-símile humilde da tela “Song of the Angels”, de William Bouguereau).

Também não poderia deixar de comentar a vídeo instalação de Pamela Massoud, intitulada “Expugnare”: uma idéia muito explorada por diversos outros artistas, como é o caso de Nam June Paik. Na obra de Massoud, a execução técnica foi menor, impregnando um viés de pouco aprimorada. A obra parece usar de uma ingenuidade ao tentar enganar o visitante mais desatento quanto à circulação do mundo das artes. Se despretensão fosse o mote, deveria haver mais pesquisa e poética visual por parte da artista.

O trípitico de Paulo Wagner também poderia ter ido além. Premiado no Arte Pará (Prêmio Aquisição) do ano passado (2009) com outro trípitico que fazia referências diretas à obra de Jenny Saville (uma observação importante que a reflexão[i] de Luizan Pinheiro não mencionou), sua pintura para Entrecorpos ousou proferir uma linha mais tensa com as obras de Willem De Kooning e Francis Bacon. Em todo caso, os pintores modernos citados buscavam o feio como forma de atingir o sublime, mas Wagner permaneceu em uma inércia instigadora (pelo menos para mim), não atingindo um único ponto, senão o da indiferença.

As únicas obras que me tiraram do lugar da apatia foram: o acertado desenho de Joana Sena, “Santa Trindade”, inteiro dentro da idéia da exposição, profano, cartunesco, estilizado; e a tela central do trípitico de Ilton Ribeiro, “Sem Título II”, mas mais por me lembrar da capa de um álbum dos Lemonheads[ii] (ainda penso que esta tela central, numa dimensão muito maior, sozinha, forneceria mais impacto – e daí meu interesse).

Em todo caso, conforme observado de maneira leve e veloz acima, as obras das exposições em foco atravessaram toda uma rede de dialogismos bakhtinianos, garantiram um cunho antropológico, reforçaram a idéia de que hoje não passamos incólumes de uma rede de informações cada vez mais densa e protética. Para o bem ou para o mal, estamos inseridos num ir e vir sem purismos, heróis, vilões.

Substantivo Feminino Espera, de Dany Meireles

Nossa Senhora, de Alexandre Dantas

Expugnare, de Pamela Massoud

Sem Título 1, 2 e 3, de Paulo Wagner

Santa Trindade, de Joana Sena

Sem Título 1, 2 e 3, de Ilton Ribeiro

REFERÊNCIAS

DELEUZE, G; GUATARRI, F. O que é a Filosofia? Rio de Janeiro: 34, 2004.

FARACO, C. A. Linguagem e Diálogo: As Idéias Lingüísticas do Círculo de Bakhtin. São Paulo: Parábola, 2009.

HASSAN, I. The Culture of Postmodernism. Illinois: 1985.

KRISTEVA, J. Aesthetics, Politics, Ethics. In: Special Issue of the Journal Parallax. United Kingdom: University of Leeds, 1998.

MARTÍN-BARBERO, J. Dos meios às Mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: UFRJ, 2003.


[i] Aluno do Programa de Pós-Graduação em Artes da Universidade Federal do Pará, com pesquisa voltada para a Arte Contemporânea Paraense e seus fluxos híbridos.

[ii] Vozes sociais ou línguas sociais é uma expressão, introduzida por Bakhtin em O Discurso no Romance, entendida como os complexos semiológicos e axiológicos com os quais determinado grupo humano diz o mundo, se relaciona com este (FARACO, 2009).

[iii] A monotonia pode ser mais bem observada na sua conhecida trilogia da incomunicabilidade com A Aventura (1960), A Noite (1961) e O Eclipse (1962).

[iv] Para ler a reflexão na íntegra, acesse:  https://artecriticapara.wordpress.com/2010/09/26/da-insuportabilidade-do-peso-do-mundo-nas-pinturas-de-paulo-wagner/

[v] O álbum em questão é It’s a Shame About Ray, de 1992.

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Written by artecriticapara

setembro 28, 2010 às 6:52 pm

Publicado em Críticas

4 Respostas

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  1. Infelizmente, apenas hoje pude ter contato com sua crítica, jovem aspirante. E foi também com muito pesar que a li. Não pelos comentários até engraçados sobre o meu trabalho (fizeram-me rir, acredite!), mas pela fragilidade das palavras e das conceituações acerca do que esteve exposto em “Entrecorpos”. Longe de querer que este comentário soe como uma defesa – pois acredito que o artista não deve estar nem um pouco preocupado em fazer de sua obra uma pequena cartilha – apenas aconselho ao jovem aspirante a criar dispositivos de ataque mais consistentes e fundamentados em discussões contemporâneas sobre a imagem e não apenas alicerçados em comparações apressadas que estabelecem limites. Devemos considerar que para uma boa crítica isto é extremamente perigoso. Sabe como é: “Para o bem ou para o mal, estamos inseridos num ir e vir sem purismos, heróis, vilões.”
    Ah, tome cuidado também com a ortografia e a conjugação de alguns verbos…não dá muita credibilidade.
    “Todo limite é ilusório, e toda determinação é negação, se a determinação não está numa relação imediata com o indeterminado”
    (DELEUZE, Gilles; GUATARRI, Félix. O que é a Filosofia? (trad.) Bento Prado Jr. e Alberto Muñoz. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992, p. 156)

    Daniely Meireles

    outubro 21, 2010 at 8:25 pm

    • que bom que vc está atenta em ver as críticas. é uma pedida para que sua próxima obra seja realmente relevante e se sustente.

      artecriticapara

      outubro 30, 2010 at 3:37 pm

    • “A maioria das imagens contemporâneas, vídeo, pintura, artes plásticas, audiovisual, imagens em síntese, é literalmente imagens em que não há nada para ser visto, imagens sem vestígios, sem sombra, sem conseqüências. O que se pressente é que, por trás de cada uma, algo desapareceu. Elas são apenas isto: o vestígio de algo que desapareceu” (BAUDRILLARD, 1990, p. 24).
      (BAUDRILLARD, J. A Transparência do Mal: Ensaios sobre os Fenômenos Extremos. São Paulo: Papirus, 1990).

      Danny, é uma pena que vc receba uma crítica com agressividade, mas em todo caso, para satisfazer alguns pontos levantados, posso dizer que a ortografia e a conjugação estão corretas, e não achei necessário transformar o texto num tratado teórico para justificar a bobagem que vc fez. Em todo caso, leia um pouco de Baudrillard e se eleve. Acho que a aspirante aqui é só você. tsc, tsc…

      “Longe de querer que este comentário soe como uma defesa – pois acredito que o artista não deve estar nem um pouco preocupado em fazer de sua obra uma pequena cartilha” – esta argumentação é das mais perniciosas e utilitaristas possíveis. Cuidado, garota…

      artecriticapara

      novembro 1, 2010 at 5:59 pm

  2. Joana Sena

    outubro 21, 2010 at 8:53 pm


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