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Da insuportabilidade do peso do mundo nas pinturas de Paulo Wagner

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Luizan Pinheiro1

O primeiro contato com as pinturas de Paulo Wagner chega a ser constrangedor frente ao estranho, ao grotesco e ao feio que emana das formas criadas em cada trabalho. E é preciso destacar que se trata do percurso inicial do artista, mas já marcado por uma atitude de procura frente as questões que são atravessadas na própria dimensão física do artista. Paulo Wagner tem um corpo avantajado, pesando 135 Kg., servindo de um modo bem definido como referência ao seu próprio processo de criação. Um processo que tem a direção de investigação em torno desse corpo e de sua projeção no real. Um corpo que se insere no espaço pictórico de maneira contumaz, numa auto-ironia flagrante, registro existencial e comportamental.
Esse aspecto da relação corpo do artista e criação é uma dimensão importante a revelar aspectos pessoais para além das referências físicas. As expressões e os gestos das personagens de Paulo Wagner vestem-se com um peso que não se visibiliza apenas na intumescência de corpos compostos ou nas definições formais impostas; mas num modo de habitar o tempo da pintura, um tempo que tem uma duração a latejar na medida do deslocamento do olhar por sobre o espaço pictórico. Revela uma espécie de angústia que se enleva no traço pictural que a matéria-cor intensifica. As expressões psicológicas e fisionômicas das personagens produzem uma pulsão na totalidade espacial e fenomênica da pintura. Personagens que irrompem numa agonia insuportável, fusão de riso, dor e escárnio. O caricatural e o grotesco se juntam para anunciar uma irritabilidade diante da vida.
É possível alinhar a obra de Paulo Wagner a três outros pintores que exploram os corpos das personagens e suas poses: Francis Bacon, Eric Fischl e Lucien Freud. Bacon é manifestamente a influência principal do artista. Paulo Wagner mantém uma aura baconiana fixada nos retratos que produz. Adultera suas figuras nas camadas de cor que insere no espaço em pinceladas tortas que suja a pintura, mas em nenhum momento flerta com um dégradé. Não há o uso de uma pincelada mais realista que remetam ao retrato mais tradicional, tal como aparece em Bacon, e que não é o elemento principal do pintor inglês, visto que Bacon está preocupado com as carnações mais explícitas e radicais que a carne-cor agencia; numa destruição da estrutura física das figuras – o rosto nos retratos, os corpos em deformações, os estados insanos que opera desde a carne. Em Wagner esse artifício também se dá, mas num jogo de sobreposições de camadas de cor, no escorrimento da tinta, numa textura que a pincelada produz. Uma destruição da figura tradicional pela rasura de traços. Segundo o próprio artista sua necessidade da matéria-tinta é o que alimenta esse processo. Quer logo terminar as pinturas, tanto é a ansiedade diante do ato de pintar para tocar na pintura, como se pintasse com as mãos num ritual de reverência à criação.

Em relação a Eric Fischl, Paulo Wagner se afasta também do pintor americano mas mantém um diálogo. Fischl se apropria de um sentido fotográfico e de um jogo psicológico muito mais explícito. Uma teatralidade que sabe-se em curso, contudo, projetando outros acontecimentos fora do que se vê, principalmente pelo cenário em que as personagens estão inseridas. Sempre submersas numa solidão e numa apatia que o tempo contemporâneo produz: sufocamento inevitável. Paulo Wagner, ao contrário, despsicologiza as personagens em função de um registro totalmente corporal e caricatural numa alusão também a personagens de HQ’s, dada a pincelada em camadas de cor chapadas, o que o afasta das pinceladas de Fischl que procura um volume dado no jogo de luz e sombra.

O pintor inglês Lucien Freud é conhecido por seus retratos de pessoas em condições inusitadas, geralmente emocionalmente atormentadas, abatidas. Ou completamente vazias, amorfas. Outras vezes em intensas atitudes de sarcasmo. Seus nus são tensos e emergem de um mundo insípido, desnorteante. Mas extremamente atraentes pelas tonalidades de pele que seduzem por esse estado de vazio expressionista. Os grandes corpos se ajustam a sua própria densidade. Criando uma atmosfera existencial e niilista projetadas pelas personagens. Em Paulo Wagner uma aura de vazio está presente mas sem um mundo em torno. O vazio é o vazio. Poucas nuanças a matizar o tempo. Tudo é muito frio. Externando pelos personagens uma rasura insuportável que os corpos abrigam. Assim o diálogo com Lucien se afirma.

Vale destacar que quem convive com Paulo Wagner no cotidiano, sente o tempo todo uma sua irritabilidade que marca deveras a personalidade do artista, num composto de impaciência e sarcasmo, que de maneira determinante, são manifestadas em suas pinturas. Certos traços de agressividade agudizam-se ainda mais nos retratos, onde o vazio monocromático dos fundos tornam a figuração ainda mais agressiva. Há uma insuportabilidade do peso do mundo nessas figuras. Está tudo ali estampado sem meias palavras; ou poderíamos dizer sem meia tinta, meia cor, meio traço. Não há indecisão, mas uma total certeza do que se quer expor, dizer, tal é o expressionismo latente do universo de Paulo Wagner. O artista evita um jogo de esconde-esconde com o espectador; seu gesto está imbuído de uma afirmação categórica, de uma impaciência em expor suas angústias e irritabilidade, tão marcadas que quase se perdem numa redundância lógica.

Um outro aspecto ainda é o corte que o artista provoca em suas composições pictóricas criando-as todas marcadas pela postura dos corpos. Esse corpo mastodôntico é o que produz a espacialidade da cena. Não são poses no sentido mais tradicional do termo, mas um flagrante do movimento dado de dentro para fora dos corpos em função das formas agigantadas das personagens. E um incômodo surge desse jogo físicorgânico projetado pelo artista.

É preciso dizer que o diálogo e as influências sofridas por Paulo Wagner dos artistas que ele admira, instaura uma busca incessante do seu próprio processo em curso. O trabalho se encontra num território de amadurecimento de pesquisa. O que o torna importante como uma trilha que aqui no Norte é pouco explorada: uma densidade visceral em que o corpo se encontra em constante compulsão e destruição. Os dois prêmios locais que o artista, em início de carreira – Paulo Wagner está terminando a Faculdade em Artes Visuais na UFPA – recebeu no Salão Arte Pará 2009 (Prêmio Aquisição) e no Prêmio Diário Contemporâneo de Fotografia (2010), em que discutia a pintura num suporte fotográfico, dão a exata noção de uma trajetória que a cada dia se fortalece e se expande, dada a acelerada procura e inquietude de Paulo Wagner diante do ato de pintar.

1 Professor da Faculdade de Artes Visuais – FAV do Instituto de Ciências da Arte – ICA da UFPA, e do Programa de Pós-Gaduação em Artes – PPGARTES/ICA. Doutor em Artes Visuais (História e Crítica de Arte) pela UFRJ.

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Written by artecriticapara

setembro 26, 2010 às 1:34 pm

Publicado em Resenhas

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