Arte Crítica Pará

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A Condição Social da Arte – por Telma Saraiva

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Penso que muitos dos trabalhos os quais não foram selecionados para esta versão do Arte Pará 2009, Extremos Convergentes, ou para outras versões, ficaram de fora não apenas porque o elenco de signos tratados pelos artistas não foi bem problematizado dentro do universo das artes visuais, mas compreendo que se tratariam de obras que não atenderam às exegeses deste exato salão, principalmente por se tratar da convergência de visões de mundo através de olhares que estariam em permanente oscilação, ao mesmo tempo em que estariam no limiar de novas afirmações.

É possível observar no salão que houve certa preocupação dos curadores e júri em relação ao público, para mostrar o cabedal artístico contemporâneo. Foi possível percebê-lo através da renovação do repertório de signos de alguns artistas mais conhecidos, tanto paraenses quanto de outros estados brasileiros, e até alguns mais novos. Foi através dos olhares criativos desses artistas sobre suas próprias realidades que o resultado dessas experiências culminou no reconhecimento de seus trabalhos na sociedade através das artes visuais.

A Arte e a Sociedade

Se nos questionarmos se ainda há uma relação entre arte e sociedade (pois hoje se fala muito nos meios acadêmicos da aparente quebra dessa relação), poderemos ver que muitos artistas demonstram através de seus trabalhos que não houve quebra alguma. Há, por exemplo, a obra “Tempo Cabano“, de Armando Queiroz, a qual faz alusão há um tempo passado, mas que ainda permanece vivo, permitindo criar a analogia entre a obra de Luiz Braga de 1990, O vendedor de amendoim, e a de Alfredo Norfini, de 1940, O Cabano Paraense, como a nos dizer que a revolução cabana pode ainda ser hoje percebida como um símbolo de ação popular de massa, de mudanças para os movimentos sociais daquilo que ainda não foi alcançado: podemos perceber no olhar distante da criança que vende  amendoim, ao mesmo tempo em que temos a imagem criada de um cabano altivo e forte, como a alimentar nossas esperanças e nos ajudar a nos identificar com esse ideal de força cabana.


Obra do artista Armando Queiroz, intitulada “Tempo Cabano”, a qual se apropriou da tela “O Cabano Paraense” (1940), de Alfredo Norfini, e da fotografia “Vendedor de Amendoim” (1990), de Luiz Braga, disposta no Museu de Arte de Belém, durante o 28° Arte Pará.

“O Cabano Paraense” (1940), de Alfredo Norfini

“Vendedor de Amendoim” (1990), de Luiz Braga

Nesse pequeno vendedor de amendoim também podemos identificar o rastro de miséria deixado pelas ocupações vindas de fora e que levou as riquezas, e, mesmo pós revolução cabana, a comparação entre as duas imagens nos remete à história das lutas cabanas, as quais, dentre muitas coisas, ansiavam por respeito e condições sociais melhores, assim como ainda hoje é presente essa luta cotidiana contra a falta de acesso a uma plena cidadania.

A artista Luciana Magno, para a criação de sua obra “VIT(R)AL“, partiu da idéia de uma não-realidade, porém sendo real, mas como numa novela sem enredo: ela era a autora e personagem principal dessa sua realidade, dentro de outras realidades por se apresentar, também, on-line. Ao criar uma realidade para si, que de fato não existia, pois a artista de fato não mora em uma loja, conseguiu desvirtuar e, ao mesmo tempo, virtualizar seu cotidiano, dando um fim ao individualismo, declarando a morte do sujeito ao apresentar-se como um produto dentro de uma loja de bens de consumo, indo ao exagero de tornar público, como uma novela, seu dia -a- dia não real em todos os sentidos. É o artista sendo produtor e produto de si mesmo e questionando a condição de refém imposta por essa sociedade de consumo (porém apenas como obra, já que ela não se pôs a venda, mesmo estando como um produto dentro da loja).

É assim que o artista, partindo de suas pesquisas e experimentações, consegue filtrar seu cotidiano e formular obras que chegam até nós através dos novos meios e diferentes suportes, sejam eles traduzidos numa arte mais tecnológica, ações urbanas ou instalações. Mas o assombro “do novo” nas artes não consiste apenas em utilizar novas tecnologias ou nomes novos para antigas fórmulas, porque a arte não sobrevive somente da matéria, nem somente das formas; ela sobrevive nesse conjunto, acrescido de idéias num movimento brusco, buscando sempre uma incômoda presença, muitas vezes para tirar o espectador de sua estranha posição de voyeur.

A instalação de Flávio Cardoso de Araújo, “Dead Pixel“, é o que poderíamos traduzir como obra de grande impacto, seja por seu aspecto plástico-formal, ou seja por sua temática mais que atual, quase jornalística, no sentido de imagem crítica de uma sociedade que beira a barbárie. Percebemos isso nas pinceladas dramáticas e nos tons que vão do ocre, marrom e cinza, ao mesmo tempo em que o artista parece brincar de editor jornalístico ao decidir não identificar o personagem em sua fatalidade, mas que imediatamente interpretamos como um menor de idade, por que há uma pixalização como vemos na TV apenas do rosto do personagem jogado ao chão. Trata-se de uma critica a essa indústria cultural que transforma em espetáculo nossos tormentos, como a insegurança e a desgraça dos homicídios, banalizando-os a tal ponto que parecem normais pela sua cotidianidade. É a imagem como um texto, retirando o público de seu papel de apenas espectador, porque imediatamente reconhece algo que lhe é comum (portanto o público consegue ler a obra). Essa afirmação vai de encontro ao que dizia Ortega y Gasset  quando se referia à arte moderna e à incapacidade de leitura do publico, por não se reconhecerem na obra. Mas, podemos afirmar (guardada as devidas proporções, já que se trata de obras contemporâneas), que, neste caso, não é apenas uma simples interferência sentimental na obra, justamente porque a mesma não cria ilusões sentimentais, e, sim, consegue ser virtual pelas informações geradas ao mesmo tempo em que é transparente para quem a observa.

Na obra “Quando Todos Calam“, da artista Berna Reale, há um significado que vai muito além da morte do corpo, mas que fala, principalmente, da morte do indivíduo como ser subjetivo, do fim de nossa individualidade como pessoas singulares (se é que algum dia ela existiu, como disse Fredric Jameson ), quando a artista, ao se representar em um velório, num espaço carregado de significados,  sobrevoada por urubus, espera para comerem a carniça que estava sobre si, mostrando a fragilidade humana e nos instigando a nos perguntar o quanto valemos, ao se expor no Ver-o-Peso, do Vale-o-Quanto-Pesa e do Vamos-nos-substituir-pelo-Quê?

Não é a toa que a artista escolheu o espaço de ancoradouro dos barcos de pesca para sua obra, já que é o local de fluxo produtivo de venda e revenda de produtos orgânicos (o peixe), que antes estavam vivos em algum lugar, e que agora já não mais, assim como muitos dos transeuntes que por ali passam e que agem como se estivessem mortos, permanecendo num estado de letargia, calados, aceitando tudo que é imposto por esta sociedade capitalista.

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Outra análise sobre a condição social da arte seria a de perceber a própria condição social do artista. É fato que as precárias condições sócias de muitos artistas superaram a importância da arte em alguns momentos em seu cotidiano, porém sem jamais sufocá-la. Numa observação em sentido macro é possível perceber que os desejos mais urgentes das sociedades sempre relegam a último plano ou a nenhum, o real entendimento sobre as artes visuais, permanecendo quase sempre a questão do gosto pelo belo, o qual muitas vezes a torna um acessório. E aí poderíamos nos perguntar: será que conhecer a real natureza da arte é impossível? Ou, a compreensão da sua natureza possível será sempre anacrônica porque parece sempre estar ou no passado ou no futuro, e nunca no seu tempo.

Telma Saraiva é Artista plástica, Mestranda em Artes pela UFPA  e Doutoranda em Historia da Arte pela Universidade de Málaga- Espanha.

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Written by artecriticapara

dezembro 5, 2009 at 1:18 am

Publicado em Críticas